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Shindo Renmei: Organização secreta que se concentrou em Tupã, Bastos, Pompeia e Marília

Fundada por imigrantes japoneses em Marília (SP), ‘Shindo Renmei’ reuniu ultranacionalistas e assassinou 23 nipônicos após a Segunda Guerra Mundial. Em 2023, fatos ainda são pouco comentados dentro da comunidade, segundo familiares de vítimas e pesquisadores.

Os sete samurais de Tupã (SP) em fotografia que estampa a capa do livro ‘Corações Sujos’, de Fernando Morais — Reprodução

*Reportagem produzida pelo G1 e republicada na íntegra

A Segunda Guerra Mundial acabou em 2 de setembro de 1945, quando um representante do Imperador Hirohito se rendeu diante das tropas americanas na baía de Tóquio, no Japão.

Seis meses depois, do outro lado do mundo, em Bastos, no interior de São Paulo, o japonês Ikuta Mizobe, de 53 anos, foi assassinado a tiros por um compatriota no quintal da própria casa.

Os dois fatos parecem distantes um do outro, mas não são. Como milhares de outros imigrantes japoneses em território paulista, o assassino de Ikuta acreditava que o Japão havia vencido – e não perdido – a guerra.

Ele era integrante da Shindo Renmei, uma organização japonesa secreta e ultranacionalista fundada em Marília (SP), que perseguia e matava conterrâneos que admitiam a derrota do país no conflito, responsável pela morte de aproximadamente 70 milhões de pessoas – sendo 2,5 milhões apenas no Japão.

“Cartas anônimas contendo ameaças de morte, atentados com bombas de [gás] mostarda caseiras e assassinatos foram os meios encontrados por japoneses ligados à organização para ‘purgar’ a colônia nipônica dos ‘traidores’ ou ‘corações sujos'”, explica Rogério Akiti Dezem, professor da Universidade de Osaka, no Japão.

Ikuta foi um dos poucos em Bastos a alardear o fracasso do Japão na guerra. Gerente da cooperativa agrícola da cidade, ele foi morto depois de distribuir aos trabalhadores um comunicado sobre a derrota.

“Ele escutou no rádio sobre a guerra e se sentiu na obrigação de informar os cooperados. Não teve culpa nenhuma. Foi morto por falar a verdade”, diz Vinicius Mizobe, sobrinho-neto de 21 anos do japonês.

Além de Ikuta, ao menos outros 22 nipônicos foram mortos e 147 ficaram feridos pelos ataques da organização. Os atentados deixaram rastros de sangue em todo o estado, especialmente na região centro-oeste.

Quase 80 anos depois, o assunto permanece pouco comentado dentro da comunidade nikkei, segundo familiares das vítimas e pesquisadores. Vinicius, por exemplo, teme que a história se perca com o passar do tempo. “É bem oculta”, ele diz.

Repressão do Estado

À época da Segunda Guerra, no início da década de 1940, mais de 200 mil japoneses e descendentes viviam no Brasil, a maioria concentrada nos estados de São Paulo, Paraná e Pará.

No centro-oeste paulista, a comunidade japonesa se fixou em cidades como Bastos, Tupã, Marília e Pompeia. Os nipônicos representavam uma grande parcela da população desses locais. No município bastense, por exemplo, sete dos nove mil habitantes eram imigrantes japoneses.

Apesar da concentração, o cotidiano desses japoneses era marcado pela discriminação. “O grupo nunca foi bem visto pela sociedade brasileira, especialmente pelos eugenistas e políticos preocupados com o branqueamento da população”, diz Zeila de Brito Demartini, diretora de pesquisa do Centro de Estudos Rurais e Urbanos da Universidade de São Paulo (CERU-USP).

A situação começou a piorar em janeiro de 1942, quando a neutralidade do Brasil na guerra chegou ao fim. Naquele mês, Getúlio Vargas rompeu diplomática e comercialmente com os países do Eixo depois que mais de 30 navios brasileiros foram afundados pela Alemanha.

“O olhar intolerante para com os estrangeiros, associado aos acontecimentos da guerra, na qual o Japão se tornou ‘país inimigo’ do Brasil, foram responsáveis pelo momento em que a colônia japonesa aqui radicada viveu seus momentos mais difíceis”, explica Dezem.

A partir de então, os japoneses ficaram proibidos, por lei, de falar o próprio idioma, cantar, tocar seu hino, exibir imagens de seus governantes, viajar sem salvo conduto, de se reunir em locais particulares ou públicos para festejar ou discutir ideias, de se mudar sem aviso prévio, possuir aparelhos de rádio e até de usar os próprios meios de transporte.

“Meus avós não puderam aprender a língua japonesa na escola. Eles estudaram escondidos. Uma professora ia na casa deles à noite para ensiná-los”, diz Vinicius.

De acordo com Dezem, os decretos varguistas faziam parte da chamada “geopolítica do controle”. “É por meio dela que o Estado, de caráter autoritário, passa a identificar e tentar controlar aqueles elementos ou grupos considerados ‘indejesáveis’ ou que podem sucitar algum perigo”, explica.

Nesse contexto, inúmeros grupos se formaram dentro da comunidade nikkei com o objetivo de manter a colônia unida. Um deles foi a Shindo Renmei, que, inicialmente, buscava apenas a manutenção do “Yamato Damashii” – o espírito japonês, característica do forte nacionalismo enraizado na cultura nipônica.

Ainda há controvérsias em relação à data de fundação da organização, que teve como principais líderes os ex-coronéis japoneses Junji Kikawa e Jinsaku Wakiyama. Existem ao menos três versões sobre o tema.

Uma delas diz que a Shindo surgiu no próprio ano de 1942, diante da forte repressão do Estado sobre os japoneses. Outra, que o grupo se originou entre 1944 e 1945, a princípio com o nome de Kodôsha, ou Movimento Unificador.

“E a versão oficial, propalada por alguns dirigentes da sociedade, é de que ela surgiu logo depois do fim da guerra, na tentativa de ser legalizada perante as autoridades brasileiras”, diz o professor.

Fim da guerra, mas não no Brasil

A guerra terminou na Europa em 8 de maio de 1945, mas prosseguiu na Ásia até aquele setembro. Segundo Dezem, foi a partir da rendição do Japão que a Shindo passou a assumir diretrizes mais radicais, como ameaças de morte e assassinatos.

“Muitos japoneses se aproveitaram do caos vivenciado no interior da comunidade, a partir das informações desencontradas sobre o desfecho da guerra, para obter vantagens sobre os próprios conterrâneos”, explica Dezem.

A polícia só soube da existência da Shindo naquele ano. À época, ela já contava com cerca de 120 mil membros, entre sócios e simpatizantes, espalhados em mais de 60 filiais no interior de SP. O grupo era equivalente a 60% dos japoneses radicados no país.

“A notícia da derrota do Japão e a repressão vivida pelos japoneses no período geraram uma grande confusão no seio da colônia. Para a maioria dos imigrantes, a Shindo se tornou uma espécie de ‘luz no fim do túnel’”, diz Dezem.

Diante da desinformação sobre o resultado da guerra, muito causada pela legislação nacionalista da época, a comunidade japonesa sofreu uma ruptura.

De um lado, concentraram-se em maior quantidade os katigumi, ou vitoristas, que, devido à falta de notícias em língua japonesa, acreditavam na mentira da vitória do Japão na guerra. Do outro, em menor tamanho, os makegumi, ou derrotistas, que, com mais acesso aos meios de comunicação, divulgavam a notícia real de que o país havia perdido.

“O caráter repressivo do nacionalismo varguista, as diferenças de caráter social e ideológico entre os próprios imigrantes reforçadas durante a guerra, a derrota nipônica e o ‘fanatismo’ foram a combinação perfeita para o fatídico racha”, diz Dezem.

Segundo o historiador Paulo José de Oliveira, a primeira atitude radical da Shindo ocorreu em Tupã, em janeiro de 1946. Na ocasião, sete japoneses foram presos na cidade depois de tentar degolar um cabo da Força Pública (atual Polícia Militar).

Isso porque, um dia antes, o agente havia limpado as botas com uma bandeira do Japão recém-hasteada pelos nipônicos – na época, hastear as bandeiras dos países do Eixo era considerado crime contra a segurança nacional.

“Aqueles japoneses eram Tokkotai, nome dado aos integrantes de uma espécie de unidade especial de ataque da Shindo”, explica Paulo. O termo é a abreviação de Taiatari Tokubetsu Kogekitai, ou “pelotão dos moços suicídas”.

Na década de 1990, o historiador percorreu cidades da região de Marília em busca de imigrantes afetados pelos ataques. Ele conheceu dois dos sete japoneses envolvidos no episódio. “Não se arrependeram do que aconteceu”, diz.

Os relatos colhidos por Paulo foram publicados no livro “Corações Sujos”, escrito por Fernando Morais e vencedor da categoria de melhor reportagem do Prêmio Jabuti de 2001.

Por causa da história, os sete nipônicos, os mesmos que aparecem na capa do livro, ficaram conhecidos como “os sete samurais”. “Eles foram presos e levados para Marília, mas foram soltos. Quando voltaram a Tupã, foram tratados como heróis, e aí as coisas começaram a desandar”, diz Paulo.

Ikuta foi morto dois meses depois. Após o crime, o secretário dele, Kemsuke Moniwa, de 40 anos, também foi perseguido. Para não ser assassinado, ele se escondeu por mais de um mês na área rural de Bastos.

“Kemsuke ficou confinado no forro do sítio do meu pai por 40 dias. Dois fanáticos chegaram a procurá-lo na casa. Depois disso, ele passou um tempo sem ir para a cidade”, conta o sobrinho do imigrante, Fumio Moniwa, de 81 anos.

Fumio era criança na época, mas relembra com clareza do episódio. “Minha família fazia marmita para ele todo dia. Amarravam o prato em uma cordinha e subiam para ele comer. Eu vivi isso”, diz.

A partir da morte de Ikuta, os assassinatos duraram quase um ano. Em Tupã, centenas de japoneses foram linchados e presos em um campo de concentração improvisado no estádio municipal depois que o contabilista Jorge Okazaki e o fotógrafo Minoru Nitto foram mortos.

No centro-oeste de SP, houve ainda registros de ataques bem e mal sucedidos em Marília, Cafelândia, Borborema e Getulina. Em algumas dessas cidades, a organização também fez com que muitos fazendeiros suspendessem a produção de bicho-da-seda, matéria-prima supostamente utilizada nos paraquedas dos Aliados.

Além dos ataques, outra frente de atuação da Shindo foi a da comunicação. O grupo chegou a produzir falsificações de todos os tipos para demonstrar que o Japão havia vencido os Estados Unidos, alegando que as informações recebidas no Brasil sobre o desfecho da guerra eram propaganda norte-americana.

“Existia um fotógrafo em Tupã que manipulava as fotos para que as pessoas pensassem que o Japão tinha rendido os Estados Unidos. Foi a fake news da época. Um fanatismo”, diz Paulo.

Derrocada

Foi a partir da prisão de alguns dos principais dirigentes da Shindo, em uma batida na sede central do grupo, no bairro do Jabaquara, na capital, que a sociedade começou a ser extinta.

De acordo com registros do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), 31.380 japoneses foram identificados e fichados por suspeita de ligação com a organização. Centenas deles foram presos.

Em agosto de 1946, Eurico Gaspar Dutra decretou a expulsão de 81 imigrantes japoneses por terrorismo. “No entanto, a pena nunca ocorreu efetivamente, e boa parte dos japoneses foi colocada em liberdade”, diz Dezem. Dez anos depois, todos foram libertados por decreto de Juscelino Kubitschek.

Segundo o professor, o “Caso Shindo Renmei”, como ficou conhecido entre as autoridades policiais e jurídicas, é considerado um dos processos com o maior número de indiciados na história do Brasil, com mais de 600 nomes.

‘Página obscura da história japonesa’

O tempo passou, mas a comunidade nikkei ainda cita com receio o período traumático. “Falar sobre esses acontecimentos evoca especialmente entre os mais velhos não apenas lembranças de momentos dolorosos, que a memória tenta esquecer, mas também sentimentos de vergonha”, diz Zeila.

Fumio é um dos poucos da família que conversa abertamente sobre o assunto, segundo ele. Ainda assim, o idoso reconhece o porquê do tema ser um tabu entre os familiares.

“É uma página obscura da história da colônia japonesa no Brasil. Por costume, a comunidade era muito unida. Todo mundo ajudava todo mundo. Só que, depois dessa guerra, houve uma cisão. As pessoas deixaram de se casar por causa de relações com a Shindo Renmei”, explica Fumio.

Ele acredita que boa parte da “nova geração” não sabe sobre a história. O jovem Vinicius concorda. “O pessoal antigo prefere ocultar. Muita gente não sabe que isso existiu. Quando as pessoas descobrem, falam: ‘não acredito’”, diz.

Mizobe só soube da história por uma grande coincidência. Quando tinha oito anos, encontrou no sítio do avô um álbum de comemoração aos 45 anos de Bastos, feito em 1973. “No livro, tem um texto sobre Ikuta. Li e decidi perguntar para o meu avô sobre aquilo. Aí ele contou: ‘esse foi um tio nosso que, por falar a verdade, foi morto’. Foi assim que descobri”.

“É uma grande bobeira não querer contar o que aconteceu. É uma parte da história que não dá para querermos apagar. Acho que isso tem que ser contado para que nunca mais aconteça”, diz Vinicius.

Nenhum outro país que recebeu imigrantes japoneses registrou algo parecido com as ações da Shindo Renmei realizadas no estado de São Paulo. Nas entrevistas feitas nos anos 90, Paulo soube que muitos dos envolvidos nos ataques esconderam a história da família.

“Foi preciso muita persistência para fazer as entrevistas. Quem integrava os derrotistas, geralmente se abria mais. Com certa dificuldade, mas se abria. Já os vitoriosos não gostavam muito de falar”, conta.

Para os pesquisadores, ainda há muitas perguntas a serem respondidas sobre a organização. “Quanto mais histórias eu ouço, mais depoimentos leio, cada vez mais tenho menos certezas sobre boa parte do que foi escrito até agora sobre a Shindo”, diz Dezem.

“Eu tenho quase certeza de que essa história vai sumir, porque não é falada”, relata Vinicius.

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